
Depois daquele acidente cá em casa que me deixou com o nariz inchado e com três cicatrizes, que ainda parecem mais feridas que outra coisa, quase não tenho colocado maquilhagem na cara. O que é certo é que me faz confusão ver a cara assim tão marcada! Considerava-me uma sortuda porque até àquela data não tinha nenhuma cicatriz no corpo. Nunca fui operada nem nada do género. Como comigo é sempre tudo em grande, quando me lembrei de fazer estragos foi logo na cara e no nariz que é onde mais se nota.
As pessoas costumam dizer-me: ahhhhh tiveste tanta sorte... isso podia ter sido muito pior... podia ter acontecido isto e aquilo e mais não sei o quê (só histórias de desgraças). Mas a boa verdade é que sorte mesmo teria se isto não me tivesse acontecido, isso sim! Na altura que estava no hospital e mesmo quando ainda tinha os pontos só conseguia pensar em ficar bem, nem tão pouco me lembrava da aparência com que iria ficar. Lembro-me de o médico no hospital me dizer que isto ia demorar uns 6 meses até ir ao sitio e que as marcas quase não se ficariam a notar se eu tivesse cuidado e tal e eu respondi-lhe: Oh doutor, quero lá saber das marcas, só quero ficar bem! E ele respondeu-me: não quer saber agora porque está com dores e assustada mas depois vai querer saber!
Bingo! Os médicos têm (quase) sempre razão. A verdade é que agora, quando me vou arranjar para a frente do espelho, chateia-me ver aquilo. Já não é a mesma coisa. As marcas vão ficar lá para sempre.
Sempre admirei e agora admiro muito mais aquelas pessoas que têm que lidar com doenças que deixam marcas de verdade. Daquelas que implicam muito sofrimento. Que geram também grandes complexos físicos. Apesar destes meus queixumes, nada disto se compara a uma situação dessas. É nisso que devo sempre pensar. Portanto, afinal, continuo a achar-me uma sortuda por ter "só" estas marquinhas da vida.